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Um Recife sem mistérios, ao alcance de todos nós

O Recife tem os seus primórdios na primeira metade do século XVI, quando existia como porto da vila de Olinda. "Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro", na imagem do poeta Bento Teixeira em seu poema épico, Prosopopéia, publicado em 1601. Antes era tão somente um acidente na costa da chamada "Terra de Santa Cruz", a Barra do Arrecife constante do Diário de Pero Lopes de Souza (1532). Anos mais tarde, veio a ser chamada pelo primeiro donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, de "ribeira do mar dos Arrecifes dos Navios", em sua carta foral datada de 12 de março de 1537, que assim denominava aquela nascente povoação de mareantes e pescadores residentes em torno da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles chamada de Corpo Santo.

Com o passar dos anos, o "Povo dos Arrecifes" veio se tornar o mais importante porto da América Portuguesa, graças à produção do açúcar, do algodão e do pau-brasil da capitania de Pernambuco. Com a invasão holandesa, em fevereiro de 1630, a povoação passou a ser sede do Brasil Holandês (1630-1654). No período de 1637 a 1644, quando o Brasil Holandês era governado pelo conde João Maurício de Nassau-Siegen, hospedou a primeira missão científica a cruzar o Atlântico e foi objeto de inúmeros melhoramentos que fizeram conhecida esta parte do Brasil em todo mundo erudito de então. A sua condição de capital permaneceu até 1654, quando da rendição das tropas da Companhia das Índias Ocidentais às tropas luso-brasileiras. Expulsos os holandeses, a capital da capitania voltou a ser a Vila de Olinda, mas o Recife nunca mais perdeu a sua situação de porto privilegiado e concorrido, através do qual eram embarcados os principais produtos produzidos pelas capitanias do norte da América Portuguesa.

A cidade lendária

De 1630 para cá o Recife não parou de crescer: Vila de Santo Antônio do Recife, em 1709; cidade, em 1823, é, finalmente, elevada à condição de capital da província de Pernambuco dia 15 de fevereiro do ano de 1827.

O Recife, a "cidade lendária" da canção de Capiba, é a também a "moradia da história". Isso porque foi cenário dos principais acontecimentos que não somente marcaram a história pernambucana como influenciaram, sobremaneira, a formação da nacionalidade brasileira.

Hoje é o Recife uma grande metrópole regional, um dos mais importantes pólos comerciais, financeiros, industriais e turísticos do Brasil.

Arruar pelo Recife

Quem chega a Pernambuco não pode deixar de conhecer o velho bairro do Recife que, com o seu porto (3.000 metros de cais acostável), deu origem ao povoamento da hoje quatro vezes secular cidade. Lá, à vista da muralha dos arrecifes com as ondas quebrando sobre ela, o visitante sentirá na alma os versos do recifense Carlos Pena Filho:

Vamos, assim, em busca de um Recife de que nos fala o poeta Manuel Bandeira, "um Recife brasileiro como a casa do meu avô"... Um Recife como aquele que, em 1957, se revelou ao escritor Tristão de Athayde: "basta abrir as janelas do sobrado alto sobre a foz do rio para que um novo alumbramento se produzisse e a cidade singular de outrora revelasse, com a graça maliciosa de quem entreabre um manto, o que guardava de encantos secretos e renovados".

Iniciaremos o nosso passeio a partir do Marco Zero, instalado em 31 de janeiro de 1938 na Praça Barão do Rio Branco, cuja estátua voltada para o mar, em bronze com 280 cm. de altura, é obra do escultor francês Félix Charpentier e foi ali inaugurada, sob um pedestal em pedra de 420 cm. de altura, esculpido por Corbiniano Vilaça, em 19 de agosto de 1917.

No final da Rua do Bom Jesus encontrava-se uma das portas da cidade (demolida em 1850, por exigência do trânsito), onde em 26 de janeiro de 1654 foram feitas a entrega das chaves do Recife e de Maurícia, a João Fernandes Vieira, pondo fim a 24 anos de domínio holandês no Norte do Brasil.

Na Praça Artur Oscar encontramos a Torre de Malakoff, onde no século XIX funcionou um observatório astronômico nas instalações do então Arsenal de Marinha, e caminhando em direção ao norte iremos encontrar a igrejinha de Nossa Senhora do Pilar (1680); a Fortaleza do Brum (1631), com o seu museu militar, e, mais ao norte, à beira do Rio Capibaribe, uma coluna em alvenaria, encimada por uma cruz de pedra, vislumbra-se o mais antigo monumento do Recife. Trata-se da Cruz do Patrão, destinada desde o século XVI à orientação dos barcos que ingressavam no ancoradouro natural, consagrada nos romances de Franklin Távora, cenário de execuções por fuzilamento e de tantas outras estórias envolvendo crendices e assombrações.

Retornando através da Rua do Brum, caminharemos em direção à Rua do Apolo onde se encontra, completamente restaurada, a mais antiga casa de espetáculos do Recife, o Teatro Apolo. Sua construção aconteceu entre 1842 e 1846, sendo inaugurado em 19 de dezembro daquele ano e funcionado até o início de 1864, quando veio a ser fechado e transformado em prensa de algodão, armazém de açúcar e depósito de produtos químicos. Assim ficou até 1981, quando a administração da Fundação de Cultura Cidade do Recife o fez voltar a sua primitiva função, transformando-o num importante centro cultural da cidade. Recentemente, entre 1995 e 1996, o Teatro Apolo passou por obras de restauração sob o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Recife e da Fundação Roberto Marinho.

Percorrendo a ilha de Santo Antônio, através do Cais Martins de Barros, seguiremos em direção à Ponte Buarque de Macedo, imortalizada nos versos do poeta Augusto dos Anjos, em busca da Praça da República, onde em 1642 o Conde João Maurício de Nassau construiu o seu horto zoobotânico e o Palácio de Friburgo. Hoje lá se encontram o Palácio do Campo das Princesas (1841), residência oficial dos governadores; o Teatro de Santa Isabel, construído, sob o traço do engenheiro francês Louis Léger Vauthier, em estilo neoclássico entre 1841 e 1850; o prédio do Liceu de Artes e Ofícios (1841); o Palácio da Justiça (1930) e o moderno prédio da Secretaria da Fazenda, com um painel pintado por Cícero Dias.

Ainda na Praça da República, bem em frente ao Palácio do Governo, uma grande árvore está a chamar a atenção dos visitantes. Trata-se de um baobá centenário (Adansonia digitata), espécime sagrada do Senegal, exaltada em versos pelo poeta João Cabral de Melo Neto e imortalizada por Antoine de Saint Exupéry no seu O Pequeno Príncipe.

Cruzando a Praça da República, através de seus jardins, estátuas e monumentos, iremos em direção à Rua do Imperador D. Pedro II onde se encontra o Convento de Santo Antônio, cujo orago é o padroeiro da cidade do Recife. O conjunto, erguido pelos frades franciscanos entre 1606 e 1613, é hoje a mais antiga construção do Recife. Com os seus azulejos holandeses no claustro e portugueses na cúpula da capela-mor (séc. XVII), sua igreja simples e harmoniosa, possuidora de preciosos detalhes em talha dourada, pinturas no teto e notável imaginário, além dos painéis em azulejos portugueses (séc. XVIII) narrando a vida de Santo Antônio, vem despertando a atenção dos mais renomados estudiosos do nosso barroco.

Bem ao lado do Convento de Santo Antônio, poderemos conhecer o Museu de Arte Sacra e a Capela Dourada da Ordem Terceira de São Francisco do Recife, cuja construção foi iniciada em 1695. Trata-se também de uma construção do mestre Antônio Fernandes de Matos, ministro da ordem entre 1697 e 1700, cujas obras em talha dourada, esculpidas pelo artista português Antônio Martins Santiago, e dezessete painéis pintados sobre madeira pelo artista José Pinhão de Matos, enchem de admiração os mais diferentes conhecedores da história da arte. Estamos diante de um dos mais importantes exemplares do barroco em terras brasileiras, considerado monumento nacional desde 1938.

Caminhando pela Rua do Imperador, vislumbramos a igreja e o hospital da Ordem Terceira de São Francisco, conjunto construído em 1702 e recebendo melhorias nos anos subseqüentes até a conclusão do frontispício de sua igreja em 1804.

No extremo sul desta rua se situa a Praça 1817, a relembrar os mártires da República de Pernambuco daquele ano (o primeiro regime republicano em terras do Brasil). No local se encontra a igreja do Divino Espírito Santo, onde, durante a dominação holandesa, funcionou o templo dos calvinistas franceses. Remodelada por Antônio Fernandes de Matos, entre 1686 e 1689, foi aquele templo entregue aos padres jesuítas sob a invocação de Nossa Senhora do Ó, os quais instalaram um colégio no pátio anexo (hoje desaparecido) em atividade até a extinção daquela ordem em terras do Brasil , em 1760, pelo Marquês do Pombal. Depois de várias destinações, inclusive como Palácio do Governo da capitania, o edifício voltou ao culto católico, em 1855, sob a invocação do Divino Espírito Santo.

Em 22 de novembro de 1859, desembarcou nessa praça o imperador D. Pedro II, acompanhado da imperatriz Tereza Cristina, em visita oficial a Pernambuco, ocasião em que teria exclamado: "Pernambuco é um céu aberto!". Nesta praça, voltado para o nascente, se ergue o grande monumento em mármore a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, aviadores portugueses que, saídos de Lisboa a bordo do "Lusitânia", em 3 de março de 1922, pousaram na bacia do Capibaribe em 5 de junho daquele ano, realizando assim a primeira travessia do Atlântico Sul em hidroavião. O monumento, esculpido por "Santos e Simões – estatuários", foi ofertado pelos portugueses residentes em Pernambuco e ali colocado em 1927.

No outro extremo da praça, já em frente ao templo do Divino Espírito Santo, encontra-se uma fonte dominada por uma índia em mármore, representando a nação brasileira, ofertada pela Companhia do Beberibe em 1846, trazendo em seu pedestal quatro datas ligadas à história de Pernambuco: 1654, Restauração Pernambucana; 1817, Revolução Republicana; 1824, Confederação do Equador; 1889, Proclamação da República. Na Rua Larga do Rosário encontraremos a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Recife (séc. XVII), onde eram coroados os reis do Congo e de Angola, de 1674 até a abolição da escravidão negra em 1888, famosa também pela sua decoração em talha e mobiliário de sua sacristia.

MERCADO DE SÃO JOSÉ - Pela Rua da Penha, tomando a via de acesso do lado esquerdo, seguiremos em busca do Mercado de São José, um singular modelo de arquitetura em ferro produzido na França, instalado no antigo "Largo da Ribeira" em 1875. Naquele centro de comércio, um dos mais belos do seu tempo, recentemente restaurado, encontraremos o melhor do artesanato regional, bem como comidas típicas, folhetos de cordel, ervas medicinais, artigos de cultos africanos, além de um importante centro de abastecimento do tradicional bairro de São José.

Através da Rua das Calçadas, chega-se ao Largo das Cinco Pontas, onde se ergue a fortaleza de São Tiago, que conservou a primitiva denominação do forte pentagonal construído pelos holandeses em 1630, o "Frederico Henrique", e reformado em 1677 por João Fernandes Vieira, responsável por sua nova denominação. Nesta praça, em local assinalado com uma lápide pelo Instituto Arqueológico e Histórico Pernambucano, foi espingardeado o pensador liberal Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, redator do jornal O Typhis Pernambucano (1823-24). No mesmo local pagaram com as suas vidas sete outros condenados, tendo sido ainda enforcados três outros no Rio de Janeiro e oito no Ceará. Na fortaleza das Cinco Pontas funciona, desde 1981, o Museu da Cidade do Recife, local de visitação obrigatória.

Depois de visitar a concatedral de São Pedro dos Clérigos, seguiremos a caminhada em direção ao Pátio do Carmo, onde se ergue o notável conjunto arquitetônico reunindo a igreja de Santa Tereza da Ordem Terceira, cuja construção fora iniciada em 1696 e se prolongou até 1837, e a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, co-padroeira da cidade do Recife, que, juntamente com o convento dos carmelitas, ocupa o local onde o conde João Maurício de Nassau instalou a Casa da Boa Vista (1643). Com a expulsão dos holandeses foram os terrenos, em sua maioria alagados, doados à ordem carmelita que, entre 1679 e 1767, fez construir o seu monumental templo, hoje de visitação obrigatória. No dia 16 de julho, feriado municipal, os devotos da Virgem do Carmelo comemoram com grandes festas o dia da co-padroeira da cidade do Recife; o padroeiro principal da cidade continua sendo Santo Antônio.

Pela Rua Camboa do Carmo, onde no século XVII corria um braço de maré, iremos alcançar a Rua das Flores, dobrando à direita, onde encontraremos, na esquina com a Avenida Dantas Barreto, um notável mural do artista Francisco Brennand, com 32 metros de comprimento, iniciado em 24 de agosto de 1961 e concluído em 24 de abril de 1962, alusivo às duas Batalhas dos Montes Guararapes, com versos escritos por César Leal e Ariano Suassuna. De lá se avista a Praça da Independência, onde se ergue o prédio do Diario de Pernambuco, fundado em 7 de novembro de 1825 e hoje o mais antigo jornal diário em língua portuguesa do mundo, e a igreja do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio (1753), que, com sua fachada apresentando esculturas em arenito dos arrecifes domina aquele centro urbano.

Caminhando pela Rua Nova, encontraremos a igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, construída entre 1725 e 1757, considerada um dos mais belos templos setecentistas do Brasil, apresentando no seu interior um verdadeiro deslumbramento com suas paredes brancas e talhas douradas contrastando-se com os painéis emoldurados em seu forro.

Chegando à Rua do Sol, iremos em direção à antiga Estação Central, bonito prédio com a sua arquitetura em ferro inaugurado em 1888, para servir à Estrada de Ferro Central de Pernambuco, e hoje ocupado pela estação central dos trens do metrô do Recife, através do qual poderemos atingir vários bairros da zona oeste, o Terminal Rodoviário do Curado e a vizinha cidade de Jaboatão dos Guararapes. Nas proximidades se ergue, imponente, a antiga Casa de Detenção do Recife, expressivo edifício construído entre 1850 e 1856, sob a direção do engenheiro José Mamede Alves Ferreira, transformado em 1975 em Casa da Cultura de Pernambuco. No seu pátio central dois notáveis painéis assinados pelo pintor Cícero Dias, com motivos da vida e da história pernambucana, chamam a atenção do visitante. Conhecer dezenas de lojas dispostas nas antigas celas da primitiva cadeia, onde se encontram as mais expressivas peças do artesanato popular da região Nordeste, é tarefa das mais agradáveis.

Na saída da Casa da Cultura, já no Cais da Detenção, poderemos apreciar a ponte Velha toda em ferro fundido, através da qual se atinge a Rua Velha, uma das mais antigas do bairro da Boa Vista, por se chega ao Pátio de Santa Cruz, cuja igreja sob esta invocação foi construída entre 1711 e 1716, e, seguindo-se pela Rua de Santa Cruz, à igreja de São Gonçalo e de lá ao conjunto arquitetônico do Hospital Pedro II.

Mas, se preferirmos seguir a nossa caminhada pela margem direita do Capibaribe, em busca da Praça Joaquim Nabuco, onde se ergue o monumento ao grande patrono da raça negra, inaugurado em 28 de setembro de 1915, voltaremos novamente à esquina da Rua Nova. Cruzando a Ponte da Boa Vista, construída em ferro na Inglaterra e aqui instalada em 1876, caminharemos até a Rua da Aurora onde, em direção ao norte, iremos encontrar o Cinema São Luís, com seus painéis assinados pelo pintor Lula Cardoso Ayres, e a ponte Duarte Coelho (homenagem ao fundador da primitiva povoação do Arrecife dos Navios), que une as avenidas Guararapes e Conde da Boa Vista. No prédio nº 265, que no passado foi sede do Club Internacional do Recife e abrigou a sede da Prefeitura do Recife, funciona hoje a Galeria Metropolitana de Arte Aloísio Magalhães, instalada em 1981 pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, recentemente transformada em museu, com o seu notável acervo de arte contemporânea produzido pelos mais consagrados artistas pernambucanos e até por estrangeiros.

Seguindo a nossa caminhada, pela margem do Capibaribe, iremos encontrar belos prédios em estilo neoclássico, ainda no casario da Rua da Aurora, com destaque especial para o de nº 277, onde funciona o Palácio Maçônico - Loja Segredo e Amor da Ordem, fundada em 1860, e o de nº 405, onde se encontra instalada a Secretaria de Segurança Pública e que fora outrora a residência do Conde da Boa Vista, Francisco do Rego Barros (1802-70), tendo nele funcionado, entre 1909 e 1930, o antigo Senado Estadual. Mais adiante vislumbra-se a ponte Princesa Isabel, e, em estilo neoclássico, o edifício sede da Assembléia Legislativa do Estado, erguido sob o traço do engenheiro José Tibúrcio Pereira Magalhães, em 1870, seguindo-se o também neoclássico Ginásio Pernambucano, construído entre 1855 e 186, obedecendo ao traçado do engenheiro José Mamede Alves Ferreira.

Ao final da Rua do Hospício, dominando a Praça Adolfo Cirne, encontra-se o majestoso edifício da Faculdade de Direito do Recife, com a sua preciosa biblioteca de raridades. O prédio foi construído entre 1889 e 1911, em estilo renascentista, segundo projeto do arquiteto francês Gustavo Varin e construção sob a direção do engenheiro José Antônio de Almeida Pernambuco, considerado um dos mais bonitos do Recife e um dos mais importantes exemplares da arquitetura em ferro do país. A Faculdade de Direito do Recife, hoje vinculada à Universidade Federal de Pernambuco, foi criada, juntamente com a de São Paulo, por lei promulgada em 11 de agosto de 1827, com o nome de Curso Jurídico de Olinda.

Em 1854, já com o nome de Faculdade de Direito, a instituição transferiu-se do Palácio dos Governadores de Olinda e deste para o Recife, onde ocupou inicialmente um sobrado da Rua do Hospício, localizado onde hoje se encontra o antigo quartel general da 7ª Região Militar.

Mas nem só de mar vive esta nossa Veneza Americana... O Recife é uma cidade, no dizer de Gilberto Freyre, de formação notadamente rurbana, visto a sua condição de porto exportador do açúcar produzido pelos engenhos que se estabeleceram ao longo da várzea do Capibaribe, a partir do século XVI. Através de terras não muito distantes, poderemos circular por áreas outrora ocupadas por alguns desses engenhos, cujos nomes encontram-se perpetuados nas denominações dos atuais bairros: Madalena, Torre, Cordeiro, Engenho do Meio, São João da Várzea, Dois Irmãos, Monteiro, Casa Forte, Engenho Uchoa, Jiquiá, Curado, Engenho São Paulo, Ibura, Engenho Poeta, que hoje cercam o centro urbano do Recife.

Assim, logo ao cruzar as pontes da Madalena, do Derby (bem ao lado do antigo prédio do Mercado de Delmiro Gouveia), ou da Capunga, estaremos em terras do antigo engenho da Madalena, com o seu interessante conjunto arquitetônico do século XIX, na Rua Benfica, e sua casa-grande de dois pavimentos em azulejos portugueses, na Praça João Alfredo. Ali, num vasto sobrado onde residiu o conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, autor do projeto da Lei Áurea, hoje funciona o Museu da Abolição. Pela Avenida Visconde de Albuquerque e Rua Conde de Irajá, atingiremos o núcleo do antigo engenho da Torre, do qual ainda se conserva o que fora a casa-grande e a capela, hoje matriz de Nossa Senhora do Rosário (séc. XVII). Continuando o percurso, pela Praça da Torre em direção à Avenida Caxangá, o passeio seguir-se-á por terras outrora ocupadas pelo engenho Cordeiro e, através da Avenida do Forte, pode-se chegar às ruínas do Arraial Novo do Bom Jesus, em terras do antigo engenho São Tomé, que teve papel fundamental nas guerras contra o holandês (1645).

Por terras do primitivo engenho do Meio, chegaremos ao Campus da Universidade Federal de Pernambuco, onde se localizam os principais centros de ensino e pesquisa da nossa mais antiga universidade (1946) e, de lá, atingiremos o engenho São João da Várzea. Num dos mais bucólicos subúrbios do Recife, o artista plástico Francisco Brennand instalou sua oficina e perpetuou sua obra, num grande e deslumbrante parque de esculturas, ponto de parada obrigatório de qualquer vivente interessado em lições da cultura viva pernambucana.Saindo de recantos tão aprazíveis, como o engenho de São João da Várzea, com suas matas, pomares, lagos e a sua casa-grande, construída em ferro (sec. XIX), iremos através de uma estrada de curiosa denominação, Volta do Mundo, em busca das terras do antigo engenho Dois Irmãos, onde se situa o campus da Universidade Federal Rural (1947) e o Horto Zoobotânico, ambos encravados numa reserva de mata atlântica com espécimens da fauna e da flora brasileira, verdadeiro refrigério para o corpo e para a mente de todos nós.

Por antigas estradas suburbanas, que estão a relembrar esses antigos engenhos e por onde circulou o primeiro trem urbano da América Latina, que tinha a denominação popular de maxambomba e serviu à população do Recife e Olinda de 1867 até o início dos anos vinte do século atual, iremos conhecer seculares mansões rodeadas por mangueiras, sapotizeiros, jaqueiras, cajueiros, bananeiras, tamarineiras, pés de fruta-pão e de carambolas, coqueiros, mamoeiros, abacateiros, goiabeiras, pitangueiras, cajazeiros, e uma infinidade de outras árvores frutíferas.

Voltando às terras do antigo engenho Casa Forte , na Avenida Dezessete de Agosto nº 2187, encontra-se o edifício sede da Fundação Joaquim Nabuco, o mais importante centro de pesquisas sociais do Norte-Nordeste do Brasil, onde muito aprenderemos sobre a vida, a sociedade, o açúcar, usos e costumes da nossa gente, numa visita guiada através das coleções do Museu do Homem do Nordeste.

Voltando à Avenida Rui Barbosa, depois de apreciar o Capibaribe de sua margem mais alta, espreguiçando-se em busca do Atlântico, iremos em direção ao antigo solar dos Barões de Rodrigues Mendes, construído bem ao gosto de Louis Vauthier, naquele estilo francês que tomou conta do Recife nos últimos anos da primeira metade do século XIX. Lá, no prédio de nº 1596, hoje funciona a Academia Pernambucana de Letras, com suas coleções de esculturas, quadros e mobiliário pernambucano. Logo em seguida, passaremos pelo Colégio das Damas da Instrução Cristã (1896), também possuidor de precioso mobiliário pernambucano, e, na pracinha em frente, conheceremos uma estação da antiga maxambomba que hoje serve de ponto de parada de coletivos.

No nº 1229, com os seus jardins tomados por seculares mangueiras e sua frente composta por grades de ferro da Fundição d’ Aurora (séc. XIX), encontra-se a magnífica e bem conservada casa do sr. Jorge Amorim Baptista da Silva, em estilo neo-gótico bem característico do Recife na segunda metade do século XIX. No quarteirão oposto, no nº 960, outro exemplar de arquitetura neo-gótica, a mansão do Barão de Beberibe, hoje ocupada pelo Museu do Estado de Pernambuco, ponto de visita obrigatório, com suas coleções de arte indígena, mobiliário da casa urbana recifense, gravuras, pinturas, além de painéis, quadros, armas e peças diversas ligadas ao período da dominação holandesa no Norte do Brasil (1630-54).

Ainda pela Avenida Rui Barbosa, em direção ao Parque Amorim, poderemos admirar seculares residências, rodeadas por convidativos pomares e belos exemplares de fundição nas grades de seus portões, além da igreja de São José do Manguinho (1759) e do Palácio do Manguinho, residência dos arcebispos de Olinda e Recife desde 1917. Mais adiante, se encontra a Praça do Entroncamento, que no passado servia de entroncamento de duas linhas da primitiva maxambomba, toda ornada por mangueiras (Mangifera indica L.), plantadas em 1924, com sua singular fonte de ferro fundido ao centro, inaugurada em 1925, seguindo-se o antigo "Sítio da Cruz", outrora residência da família Tavares da Silva, hoje um precioso exemplar da arquitetura francesa em terras recifenses, com o seu entorno mutilado por alguns acréscimos.

Chegando ao Parque Amorim, voltamos ao bairro da Boa Vista, através do qual poderemos ir ao encontro da igrejinha das Fronteiras, erguida a partir do ano de 1646 pelo comandante Henrique Dias, governador dos negros e mulatos quando das lutas que culminaram com a expulsão dos holandeses em 1654, ou do Colégio Salesiano do Sagrado Coração, na Rua Dom Bosco nº 551, cuja igreja em estilo neoclássico italiano se insere entre as maiores do Recife. Na Boa Vista, estão ainda a Universidade Católica de Pernambuco, o Colégio Marista, o Colégio Americano Batista, o Colégio Nóbrega, bem como outros estabelecimentos de ensino médio do Recife.

No Parque do Amorim, estaremos na encruzilhada desse nosso roteiro histórico e sentimental... Através da Avenida Agamenon Magalhães, que margeia o canal Derby-Tacaruna, poderemos prosseguir em novos itinerários. Em direção ao sul, tomando-se a Estrada dos Remédios, na altura da Ilha do Retiro, e depois a antiga Estrada da Imbiribeira, através dos Afogados, poderemos ir em direção ao Parque Histórico dos Montes Guararapes, onde nos espera o belo cenário da igreja votiva de Nossa Senhora dos Prazeres (cuja construção fora iniciada em 1654), em terras do vizinho município de Jaboatão dos Guararapes... Seguindo-se em direção ao norte, logo vislumbraremos as colinas da vizinha cidade de Olinda, a primeira capital de Pernambuco, onde outras surpresas estão a nossa espera...